A Geração Z está desconectando: o que isso revela sobre o futuro do Wellness

Por Eder Wagner
Imagem: IA

A geração que nasceu com o celular na mão está, curiosamente, tentando deixá-lo de lado. Esse é o paradoxo que começa a moldar a Geração Z, um grupo que cresceu no universo digital, que respira redes sociais e que transformou a internet no espaço mais importante da vida social. Mas agora, cada vez mais, esses jovens expressam uma vontade quase desesperada de se desconectar. Pesquisas nos Estados Unidos mostram que mais de 80% deles gostariam de se desligar mais facilmente, e no Reino Unido quase 70% afirmam que o tempo excessivo online faz com que se sintam pior. Ao mesmo tempo, quase metade relata ansiedade só de pensar em viver longe da rede. O resultado é um ciclo estranho: precisam das telas, mas também sofrem com elas.

Esse desconforto abriu espaço para um movimento curioso, que a mídia internacional vem chamando de off-grid. Trata-se de uma busca consciente por momentos e experiências fora do mundo digital. O fenômeno já movimenta mercados. Marcas como Light Phone, que vende celulares minimalistas capazes apenas de ligar e mandar mensagens, ganharam força. Aplicativos como Roots e Brick se propõem a ajudar os jovens a limitar o tempo de tela. E, no mundo físico, novos espaços sociais vêm surgindo: clubes de corrida, supper clubs, saunas coletivas e ambientes batizados de “fourth spaces”, onde a regra é simples — celular não entra. A mensagem é clara: há uma nova geração disposta a pagar pelo luxo da desconexão.

Mas o que isso significa para o mercado de wellness e fitness? Significa que estamos diante de um comportamento que não pode ser ignorado. A Gen Z já gasta mais proporcionalmente com bem-estar do que qualquer outra geração. Relatórios de empresas como McKinsey e Les Mills mostram que eles priorizam saúde, sono, nutrição e fitness acima de status ou bens materiais. É uma geração que vê wellness como parte essencial da vida, não como um luxo. Eles rejeitam dietas radicais, treinos punitivos e soluções de curto prazo. O que buscam é equilíbrio: práticas sustentáveis, experiências prazerosas, marcas com propósito e, principalmente, comunidade.

Se olharmos para o fitness, a transformação já está em andamento. O treino deixou de ser apenas atividade física e passou a ser experiência social. Nunca se viu tanta adesão a treinos em grupo, corridas coletivas, aulas que misturam exercício com lifestyle. O chamado omnifitness, que combina o melhor do digital com o presencial, é adotado por mais de 70% desses jovens, que ao mesmo tempo usam aplicativos e frequentam academias. Eles querem conveniência, mas também pertencimento. Querem treinar onde for possível, mas querem sentir a energia compartilhada de estar juntos.

O detalhe é que, mesmo investindo pesado no digital, essa mesma geração agora busca justamente o oposto: ambientes livres de telas, retiros desconectados, espaços que permitam respirar. E aqui está uma chave para o mercado de wellness: criar propostas híbridas, que unam tecnologia quando ela traz conveniência, mas que também ofereçam momentos de detox, de conexão humana real, de experiência genuína.

Do ponto de vista estratégico, o futuro do wellness não está apenas em oferecer treinos ou produtos, mas em construir ecossistemas. Espaços capazes de integrar corpo e mente, comunidade e performance, tecnologia e silêncio. O desejo da Gen Z mostra que não basta estar em forma fisicamente; é preciso também estar em paz mentalmente. O que eles procuram é bem-estar integral, prazeroso, sustentável e com propósito.

Ao mesmo tempo, isso representa uma oportunidade de negócio única. Estamos falando de um setor resiliente, que continua crescendo mesmo em cenários de crise econômica. A nova geração investe mais do que as anteriores, e não apenas porque pode, mas porque considera wellness uma prioridade inegociável. Academias, estúdios, clínicas e marcas que entenderem essa mentalidade vão liderar o mercado nos próximos anos.

O que vejo nesse movimento off-grid é, no fundo, uma reação natural ao excesso. O ser humano sempre busca equilíbrio, e quando uma força puxa demais para um lado, a tendência é surgir um contra-movimento. Vivemos uma era de hiperexposição, hiperprodutividade, hiperconexão. A resposta da Gen Z é simples e poderosa: buscar espaços para respirar. E é justamente nessa respiração que está o futuro do wellness.

O desafio para nós, profissionais e empreendedores, é enxergar além da tendência de superfície. Não é sobre largar o celular. É sobre criar experiências onde o celular perde importância. Não é sobre fugir do digital. É sobre encontrar formas de viver bem dentro e fora dele. E esse equilíbrio, que parece tão óbvio, será o verdadeiro luxo da próxima década.

A Geração Z nos mostra que o wellness do futuro será híbrido, humano e integral. Será sobre treinar o corpo, mas também silenciar a mente. Sobre usar a tecnologia, mas também saber desligá-la. Sobre estar conectado ao mundo, mas sem perder a conexão consigo mesmo. E quem entender isso agora terá não apenas clientes, mas seguidores, defensores, uma comunidade engajada em torno de algo maior.

Porque, no fim, o que está em jogo não é só fitness ou bem-estar. É a chance de resgatar aquilo que mais nos falta em meio a tanta tela: presença.

Eder Wagner • Bem Estar

Expert em Movimento e Pós Graduado Performance Esportiva Sistema Internacional de ensino. Proprietário Studio Life30.

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Expert em Movimento e Pós Graduado Performance Esportiva Sistema Internacional de ensino. Proprietário Studio Arkhos Training Wellness Concept.