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Antigamente, quando a gente se tornava mãe, a gente se comparava com poucas pessoas: a nossa própria mãe, de repente uma vizinha experiente com dois ou três filhos ou até mesmo com alguma amiga. Nos dias de hoje, basta um clique para que a gente fique sabendo como é que uma mãe, na Noruega, faz a rotina noturna com seu bebê. Com mais um clique, em poucos minutos, a gente se depara com dezenas – e até mesmo centenas – de mães que ostentam uma rotina impecavelmente organizada, casas arrumadas e crianças sempre felizinhas. E mesmo sabendo que aquilo é apenas um recorte (irreal) da realidade, é difícil não ter a impressão de que todo mundo está fazendo um trabalho melhor do que o nosso.
O maternar ostentado nas redes ganhou também um tom performativo, que muitas vezes me enlouquece, pois como se não bastasse cuidar do nosso filho parece que é preciso compartilhar todas atividades criativas, lanches nutritivos e esteticamente perfeitos e, é claro, momentos muito encantadores de interação familiar. Na minha cabeça, frequentemente os pensamentos intrusivos me atravessam: “Será que SÓ MINHA FILHA tem crises de choro porque não deixei ela comer a bucha de lavar louça?”, e a resposta é não. Mais uma vez, como em tantas outras na maternidade, nenhuma experiência é individual.
Enquanto isso, fora das telas, a gente percebe que tudo é muito menos estético. Tem dias que a Antônia simplesmente não quer nada no café da manhã, no outro só aceita banana e pão. No terceiro dia volta tudo ao normal, aceita fruta, ovo e uma chipinha de brinde. E assim, vamos vivendo e aprendendo, principalmente a não nos desesperar. E fazer o esforço de lembrar que cada dia é um dia, e não uma sentença na nossa história.
Comparar é uma característica do ser humano mesmo, mas talvez um dos maiores exercícios pra tentar manter a nossa sanidade materna em dia seja fazer um esforço pra lembrar que a maternidade não é uma vitrine, nem precisa ser. A maior parte dela acontece longe das câmeras – no cansaço, na tentativa e erro e nos vínculos de todos os dias que ninguém posta, mas que são justamente os que mais importam.
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Mariana Medeiros • Colunista de Maternidade
Advogada formada pela UNIDERP, entusiasta da comunicação e costureira. Defensora dos direitos das mulheres e mãe.
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