Dupla gestão: Sesau aponta resistência da SES para integrar regulação em Campo Grande

Problema dificulta desde internações até encaminhamento de casos mais graves, como o de Sophie, morta há uma semana na Santa Casa

Foto: Ana Laura Menegat

O Ministério Público de Mato Grosso do Sul instaurou um inquérito civil para apurar possíveis prejuízos à população após a mudança nos fluxos de regulação do Hospital Regional de Mato Grosso do Sul (HRMS). Gestão dividida estaria influenciando na morte de pacientes.

O procedimento foi aberto a partir de uma Notícia de Fato registrada pela 32ª Promotoria de Justiça da Saúde Pública, que recebeu no final do ano passado documentação da 76ª Promotoria relatando caos no sistema de leitos da rede municipal de Campo Grande.

A investigação mira os efeitos da chamada “gestão dupla” entre Estado e Município na regulação de pacientes e a falta de transparência entre as plataformas, o que teria provocado demora em atendimentos de urgência e emergência, resultando na morte de pacientes. 

Em um dos episódios mais graves, uma criança de 8 anos de Camapuã morreu após ter a transferência negada para o HRMS, mesmo com sintomas graves compatíveis com caso de “vaga zero”. O caso em questão, segundo os autos do MPMS, indicava acidente causado por animal peçonhento.

“Houve episódio de criança de 8 anos de Camapuã que apresentou quadro de lesão glútea e demais sintomas graves sugestivos de quadro ofídico, cuja referência é o HRMS. A solicitação de internação foi submetida à regulação estadual, que não liberou a transferência para o HRMS, mesmo sendo quadro enquadrável na chamada “vaga zero” e o único local que poderia tratar o caso. Somente após intervenções pessoais por parte da SESAU, a vaga foi liberada pelo HRMS na manhã do dia seguinte, mas a criança foi a óbito no CRS antes mesmo de chegar ao HRMS”, afirma trecho de reunião entre a Sesau e o MPMS.

REUNIÃO EXPÕE DESAFIOS

No encontro, realizado no mês de janeiro, a Sesau confirmou que 140 pessoas estariam na fila por leitos hospitalares, enquanto o sistema de regulação estadual impedia que o Município visualizasse todos os pedidos de internação. 

A promotora Daniella Costa da Silva aponta que a ausência de um comando único de regulação tem desorganizado o Sistema Único de Saúde e sobrecarregado hospitais como a Santa Casa, que chegou a ter 31 pacientes na área vermelha com capacidade para apenas seis.

O inquérito agora exige que a Secretaria Municipal e a Secretaria Estadual de Saúde prestem esclarecimentos sobre os impactos da mudança, os protocolos vigentes e as tratativas realizadas desde a crise. 

Além disso, o MP requisitou a resolução que criou e posteriormente revogou a Central Única de Regulação das macrorregiões de Campo Grande e Três Lagoas.

Para o MP, a falta de integração e clareza nos fluxos de regulação pode estar comprometendo o acesso adequado da população aos serviços de saúde pública, violando o direito à vida e à saúde garantidos pela Constituição. O inquérito será acompanhado também pelo Centro de Apoio Operacional dos Direitos Humanos e pela 76ª Promotoria da Saúde.

CASO SOPHIE

O caso da menina Sophie, que morreu no dia 29 de maio, após o fluxo de atendimento apresentar falhas desde a regulação, escancara a falta de colaboratividade entre Estado e Município, impactando na assistência à população. 

Dois dias antes da primeira ida da criança à Santa Casa, o hospital já havia comunicado bloqueio do pronto-socorro por incapacidade de manter condições mínimas. Contudo, isso não foi considerado no ato de recepção da menina à unidade e sequer influenciou na busca por amparo em outros hospitais como o HRMS.

Desde março, a unidade alertava autoridades e a Justiça sobre superlotação e desabastecimento. 

Fonte: Midiamax