Especial Mulheres: A força da coletividade feminina diante das desigualdades

Foto: Corrida e Caminhada Mulheres de FIbra, Arquivo Pessoal

A autonomia financeira e a liberdade de decidir sobre a própria vida estão entre as conquistas mais transformadoras das mulheres nas últimas décadas. Mais do que independência econômica, o acesso ao trabalho remunerado ampliou possibilidades de escolha, redefiniu papéis sociais e alterou profundamente a estrutura das famílias brasileiras.

Hoje, construir essa autonomia é uma prioridade clara. Pesquisa “Mulheres e Mercado de Trabalho”, divulgada em março, aponta que 37,3% das brasileiras consideram a independência financeira seu principal objetivo de vida. Mas a trajetória até essa autonomia ainda é marcada por desigualdades profundas.

Dados da Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, embora as mulheres brasileiras tenham níveis de escolaridade mais altos, elas continuam participando menos do mercado de trabalho e ganhando menos que os homens. Em 2024, 49,1% das mulheres em idade ativa estavam empregadas, contra 68,8% dos homens. Quando conseguem uma vaga, o rendimento médio feminino corresponde a 78,6% do salário masculino.

Mesmo trabalhando fora, as mulheres seguem sendo as principais responsáveis pelas tarefas domésticas e pelo cuidado com familiares. Segundo o IBGE, 85% do trabalho de cuidado no país é realizado por mulheres, que dedicam em média 21 horas semanais a essas atividades — quase o dobro do tempo gasto pelos homens.

Esse cuidado envolve uma série de atividades invisíveis que sustentam o cotidiano das famílias: lavar roupas, cozinhar, levar filhos à escola, acompanhar consultas médicas, cuidar de pais idosos ou organizar a rotina doméstica. Isoladamente, essas tarefas já poderiam ocupar grande parte do dia. Somadas ao trabalho formal, transformam a rotina feminina em um exercício constante de equilíbrio.

Apesar disso, as mulheres seguem ampliando sua presença na economia. Hoje, 48,1 milhões de brasileiras fazem parte da força de trabalho, segundo dados da PNAD Contínua.

Ao mesmo tempo, elas também assumem cada vez mais responsabilidades dentro de casa. O Censo de 2022 mostra que 49,1% dos lares brasileiros já têm mulheres como principais responsáveis pela unidade doméstica, uma mudança estrutural em relação às décadas anteriores.

A força da coletividade feminina

Redes femininas, sejam elas coletivos, comunidades ou grupos informais de apoio,  têm se tornado espaços de acolhimento, troca de experiências e fortalecimento profissional. Mais do que encontros sociais, esses ambientes funcionam como uma estratégia coletiva de sobrevivência e crescimento.

É dessa percepção que surge o Mulheres de Fibra, uma comunidade criada para conectar e apoiar mulheres em suas trajetórias pessoais e profissionais.

O movimento é liderado por Ranielly Arcanjo e nasceu a partir de um podcast com o mesmo nome. Durante quase dois anos, o programa reuniu entrevistas com mulheres empreendedoras que compartilharam histórias de superação, desafios e conquistas. Foi nesse processo de escuta que a ideia de comunidade começou a tomar forma.

“Durante esse período entrevistando essas mulheres, percebi algo muito forte: muitas tinham histórias inspiradoras, mas também desafios muito parecidos: solidão no empreendedorismo, sobrecarga, medo e coragem ao mesmo tempo”, conta.

Segundo ela, o projeto surgiu justamente da necessidade de criar um espaço onde essas experiências pudessem ser compartilhadas de forma coletiva. “A comunidade nasceu para que mulheres possam se encontrar, trocar experiências, aprender juntas e se apoiar”, afirma.

Hoje, o grupo promove encontros mensais voltados ao desenvolvimento pessoal e profissional. As reuniões reúnem mulheres de diferentes áreas para compartilhar conhecimentos, discutir desafios e fortalecer conexões. 

A última ação foi realizada no dia 8 de março, em comemoração ao Dia Internacional das Mulheres, onde mais de 70 mulheres se reuniram durante a Corrida e Caminhada Mulheres de Fibra, realizada no Parque dos Poderes, em frente à Secretaria Estadual de Educação, em Campo Grande. 

Para Ranielly, movimentos femininos cumprem um papel que vai além da formação profissional. “Quando mulheres se encontram, elas percebem que não estão sozinhas nos seus desafios e que é possível crescer juntas”, diz.

Mais do que networking ou troca de contatos, esses espaços reforçam algo essencial: a possibilidade de dividir pesos que historicamente foram carregados de forma solitária. “Quando existe apoio entre mulheres, o peso das responsabilidades deixa de ser carregado sozinha. Ele passa a ser dividido em forma de incentivo, escuta e inspiração”, conclui.

Em um país onde as desigualdades de gênero ainda atravessam o cotidiano, dentro e fora de casa, essas redes mostram que a autonomia feminina raramente é uma conquista individual. Na prática, ela continua sendo construída coletivamente.

Como encontrar o Mulheres de Fibra

Para mulheres que desejam se unir ao movimento, é possível entrar em contato pelo Instagram @mulheresdefibracomunidade

Redação por Grupo Hora