Após embate tarifário, China aumentará as importações de alimentos da América Latina e da Europa

.
A escalada da guerra comercial entre os Estados Unidos e a China pode beneficiar as cadeias produtivas brasileiras, incluindo a de Mato Grosso do Sul.
As novas tarifas de 25% impostas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, sobre as importações do México e do Canadá entraram em vigor nesta terça-feira junto às novas taxas sobre os produtos chineses.
A guerra tarifária pode beneficiar MS a “abocanhar” a fatia de produtos comprados pelo país asiático, principalmente carne bovina/suína e soja.
Em resposta às taxas adicionais impostas por Trump, a China anunciou novas tarifas de 10% a 15% sobre produtos agrícolas dos EUA. Além disso, Pequim restringiu exportações e investimentos de 25 empresas norte-americanas, citando razões de segurança nacional.
Como consequência, a China, o maior importador agrícola do mundo, deve aumentar suas compras de carne, laticínios e grãos de fornecedores da América do Sul, da Europa e do Pacífico.
Para Aldo Barrigosse, especialista em Comércio Exterior, o agronegócio de Mato Grosso do Sul pode ser beneficiado no curto prazo.
“A guerra tarifária imposta pelo governo Trump poderá impactar positivamente o Estado, pois somos grandes produtores de itens exportados pelos norte-americanos à China e que foram taxados, como a carne bovina e a soja. Assim, MS poderá ser mais competitivo com essas barreiras tarifárias”, afirma.
Conforme reportagem da Forbes Agro, a China é o maior mercado para as exportações agrícolas dos EUA, recebendo US$ 29,25 bilhões em produtos em 2024, e qualquer mudança nos fluxos comerciais poderá criar oportunidades para exportadores rivais.
“Haverá um redirecionamento do comércio após as tarifas de importação da China sobre os produtos norte-americanos”, disse Pan Chenjun, analista sênior de proteína animal do Rabobank em Hong Kong.
Doutor em Economia, Michel Constantino avalia que há uma boa expectativa para a economia local.
“A tendência é de melhorar o mercado para o agronegócio brasileiro, na venda de commodities, energia e aço, pois ele deve taxar cada vez mais os chineses, fazendo com que nossos produtos tenham maior valorização para a Ásia”, pontua.
Barrigosse explica que, a longo prazo, a guerra comercial não é benéfica para nenhum país, uma vez que as cadeias produtivas acabam sendo globalmente relacionadas.
“O governo Trump é por ideologia protecionista, ou seja, foi eleito para defender a sua produção local. Porém, vivemos em um mundo onde as cadeias produtivas são dependentes umas das outras”, frisa.
“Por exemplo, a China é o maior importador global de soja e não tem produção suficiente da oleaginosa para atender a sua demanda interna. Portanto, a China depende de fornecedores como o Brasil e os EUA”, exemplifica.
“Outro exemplo: o Brasil produz apenas 60% da sua demanda de trigo, precisando importar outros 40%. Por isso, a guerra tarifária não ajuda nenhum país, e precisamos buscar estreitar diálogos entre os países, algo que eu imagino que deverá ocorrer logo”, cita Barrigosse.
Atualmente, a China é o principal destino das exportações de Mato Grosso do Sul, consumindo quase 50% de tudo que o Estado envia ao exterior.
Conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, em todo o ano passado, foram negociados US$ 3,011 bilhões com o país asiático, uma alta de 24% ante os US$ 2,424 bilhões acordados em 2023.
Já os EUA são o segundo maior comprador da produção de Mato Grosso do Sul.
Em 2024, os envios de MS ao país norte-americano resultaram em US$ 654,789 milhões negociados, uma alta de 27,7% ante os US$ 512,642 milhões acordados no mesmo período do ano anterior.
ROTA BIOCEÂNICA
Conforme já elencado pelo Correio do Estado, há outro ponto que pode ser benéfico para Mato Grosso do Sul. A política protecionista de Trump tem gerado tensões significativas em relação ao Canal do Panamá e à influência chinesa na região. Para MS e para parte da América do Sul, a tensão tarifária pode ser positiva do ponto de vista de funcionamento da Rota Bioceânica.
Em dezembro do ano passado, o presidente dos EUA disse que os norte-americanos deveriam retomar o controle do canal, afirmando que as taxas cobradas pelo Panamá eram “exorbitantes” e que a infraestrutura estaria “caindo em mãos erradas” – uma referência à China.
Já o presidente panamenho, José Raúl Mulino, refutou as alegações, reafirmando a soberania do Panamá sobre o canal e negando qualquer controle chinês sobre a operação da hidrovia.
Em entrevista ao Correio do Estado no mês passado, o titular da Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), Jaime Verruck, esclareceu que o corredor rodoviário que vai ligar os oceanos Pacífico e Atlântico pode ganhar com a guerra comercial.
“Obviamente, as restrições comerciais impactam o País, ferro, soja, etanol… Se ele [Trump] vier a fazer, isso tem um encarecimento. Agora, quando a gente olha para os posicionamentos do Trump com restrições à passagem de produtos chineses pelo Canal do Panamá, isso torna a Rota Bioceânica muito mais visível e mais relevante, porque é exatamente o que nós queremos. Quer dizer, queremos concorrer com o Canal do Panamá”, explicou o secretário.
Não há evidências públicas de que o governo chinês exerça controle sobre a via marítima ou sobre as Forças Armadas do Panamá. No entanto, a pressão dos EUA levou o país panamenho a reconsiderar seus acordos com a China.
No início do mês passado, o presidente Mulino anunciou a saída do Panamá do memorando de entendimento da Nova Rota da Seda, um plano de investimento chinês.
“No momento em que o Canal do Panamá apresenta ainda mais restrições, o mundo asiático olha para a Rota Bioceânica de uma forma mais competitiva. Inclusive, os chineses, que já construíram um porto no Peru, entendem que a rota pode ser um alimentador de produtos. E nesse primeiro momento, as pessoas sempre perguntam o que vai passar pela rota, e eu acho que os primeiros produtos que vão sair são proteínas animais”, finalizou Verruck.
Fonte: Correio do Estado