A comparação é inevitável: a Ferrari pode ter o carro mais famoso da Fórmula 1, mas sem piloto não cruza a linha de chegada. O rádio, como veículo, precisa de quem o conduza com talento e paixão. Sem comunicadores, resta apenas o som, sem alma
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Um dado preocupante ronda as emissoras de rádio. Em conversa recente com o empresário Carlos Bernardo, apaixonado pelo meio, percebi sua inquietação: estaria o rádio perdendo espaço para as redes sociais? A questão não é apenas tecnológica, mas sobretudo humana.
Há poucos dias, o comunicador e cantor Edelson Moura fez uma análise certeira: os verdadeiros comunicadores têm sido substituídos por meros “anunciadores de músicas”. A observação ecoa a mesma feita por meu amigo Sérgio Braga, que lamentava a ausência daqueles locutores das antigas, que conversavam com as donas de casa, com as secretárias do lar, que criavam intimidade e pertencimento.
O rádio sempre foi mais que um aparelho ligado na estante da sala. Ele era companhia, era voz que preenchia o silêncio, era amigo invisível que sabia falar de perto. O atual prefeito de Dourados, Marçal Filho, é prova viva dessa força: fenômeno do rádio, construiu sua trajetória conversando diretamente com os ouvintes, fazendo da comunicação um diálogo, não um monólogo.
A comparação é inevitável: a Ferrari pode ter o carro mais famoso da Fórmula 1, mas sem piloto não cruza a linha de chegada. O rádio, como veículo, precisa de quem o conduza com talento e paixão. Sem comunicadores, resta apenas o som, sem alma. É bom lembrar que a culpa não é dos comunicadores, muitos são ótimos, mas são proibidos de comunicar. A comunicação é a essência, isto é, a alma do rádio.
Os mais antigos lembram de Zé Béttio, Eli Corrêa, Haroldo Andrade, Hélio Ribeiro e tantos outros que marcaram época. Eles tinham liberdade para comunicar, para improvisar, para criar vínculo. Hoje, muitos diretores parecem acreditar que o locutor não precisa aparecer. Talvez seja justamente essa ausência que tenha empurrado ouvintes para as redes sociais, onde a interação é imediata e a presença é constante.
Em Dourados comunicadores talentosos como Jorge Antonio Salomão, Luiz Rogério de Sá, Laura Márcia, Elizzabeth Salomão, José Guerreiro(Velho Tatau), Albino Mendes, Gilberto Orlando, Odir Pedroso, Edgard Martins, Germando Dingsigger, Lourimar Netto, Cloe Fazzano, Antonio Carlos Ruiz, Sidney Correa, Leniro Novinsky, Wilson Gonçalves, Cedar Montiel(Nhô Tito), Antonio Coca, Gilberto Pieretti, Nelson Sudário, Negão da Arapuca, Silva Junior, Oswaldo Duarte, Jota Aguilar. Ezequiel Gonzales e tantos outros, são exemplos de grandes comunicadores, alguns inclusive na ativa.
Eu acredito na força do rádio. Ele resiste, pulsa, e ainda pode se reinventar. Mas é preciso que os gestores compreendam: o rádio não é apenas música, é comunicação. É preciso devolver ao locutor o papel de protagonista, ouvir quem mais entende de rádio — os ouvintes — e permitir que a magia da voz volte a ser ponte entre o microfone e o coração.
Converso muito com o Nenão da UCP. Antonio Coca, Noemir Felipetto(dois apaixonados pelo rádio como eu) e outros colegas e temos opiniões convergentes sobre o tema: Muitos estão fazendo de tudo para assassinar o rádio, mas este veículo extraordinário é tão forte e mágico, que continua com o seu protagonismo, apesar de alguns.
O rádio não morreu. Ele apenas espera que alguém o conduza novamente. O Grande Hélio Ribeiro, um dos maiores comunicadores de todos os tempos já dizia: “Radio, a maior oportunidade perdida de mudar o mundo.”
Mas quem é esse tal de Rádio?
Helio Ribeiro um dos maiores locutores do Brasil, a voz de “O Poder da Mensagem”, apresenta esse veiculo mágico no texto “Meu Nome é Rádio”.
MEU NOME É RÁDIO
” Meu nome é rádio, minha mãe é dona Ciência, meu pai é Marconi. Sou descendente longínquo do telégrafo, sou o pai da televisão. Fisicamente sou um ser eletrônico.
Meu cérebro foi formado por válvulas, minhas artérias são fios por onde corre o sangue das palavras.
Meus pulmões são tão fortes que consigo falar com pessoas dos mais distantes pontos deste pequeno planeta chamado Terra. Minha vitamina chama-se kilowatt. Quanto mais kilowatts me dão, mais forte eu fico e mais longe eu falo.
Hoje, graças as baterias que me alimentam eu posso simultaneamente levar informações aos contrafortes das cordilheiras, às barrancas dos rios, ao interior de veículos que trafegam no centro nervoso das grandes cidades, à beira plácida dos lagos, à cabeceira dos doentes nos hospitais, aos operários nas fábricas, aos executivos nos escritórios, aos idosos que vivem só e às crianças que só vivem.
Eu falo aos religiosos, aos ateus, às freiras, às prostitutas, aos atletas, aos torcedores, aos presos, aos carcereiros, banqueiros, devedores. Falo aos estudantes e professores…
Seja você quem for, eu chego lá, onde quer que você esteja!Ao meu espírito resolveram chamar “ondas”.
Eu caminho invisível pelo espaço para oferecer ao povo a palavra, a palavra nossa de cada dia.
Mas estou sempre sujeito a cair em tentação e às vezes não consigo me livrar de todo mal.
Quando eu nasci, meu pai me disse que eu tinha uma missão: ajudar a fazer o mundo melhor, entrelaçando os povos de todas as partes deste planeta.
Meu nome é rádio.
Eu não envelheço, me atualizo.
Materialmente eu sou aperfeiçoado a cada dia que passa.
As grandes válvulas do meu cérebro foram substituídas por minúsculos componentes eletrônicos.
Os satélites de comunicação, gigantescos engenhos girando na órbita deste planeta, permitem hoje que eu seja mais universal, mais dinâmico e menos complicado, como meu pai Marconi queria que eu fosse.
Minha forma técnica tem sido aperfeiçoada a milhares de anos luz, mas eu acho que no todo, o meu conteúdo ainda necessita ser burilado e melhorado, e trabalhado e aperfeiçoado.
Tenho noção, mas eu já perdi a conta, do número de pessoas que eu ajudei indicando caminho, devolvendo a esperança, anulando a tristeza, conseguindo remédios, sangue, documento perdido, divulgando nascimentos e passatempos.
Mas eu não sou tão sério assim como eu posso estar parecendo.
Na verdade, um dos meus principais interesses é fazer com que as pessoas vivam mais alegres.
Por isso, passo grande parte do meu tempo ensinando as pessoas a cantar e a dançar, minha grande vontade é a de ser amigo, sempre.
O amigo que todos gostariam de ter: útil nas horas sérias, alegre nas brincadeiras e responsável… sempre!No esporte tô sempre em cima do lance; nos dois lados da rede das bolinhas de tênis ou de voleibol, e lá vem bola, na área do futebol, jogou na cesta tô lá, nadou, pulou, saltou, pegou, virou, driblou…
Pode ser no pequeno clube da periferia ou nos grandes estádios Olímpicos.
Tenho noção de minha força política. Com uma notícia que dou, eu posso ajudar a eleger o diretor de um clube ou derrubar um presidente.
Entendo minha grande responsabilidade de agente acelerador das modificações sociais. E morro de medo, que me transformem em um mentiroso alienador.
Sem querer ser vaidoso, eu posso até afirmar que se eu não tivesse nascido, o mundo não seria o mesmo.
Meu nome é rádio.
Eu não quero ser mal entendido.
Eu sou apenas um instrumento.
Para fazer tudo isso que eu disse que faço eu preciso de uma equipe, de seres humanos, humanos!
Que não tenham medo do trabalho, que entendam de alegria, emoções, fraternidade, que saibam sentir o pulso do campo e o coração da grande cidade.
E que tenham noção básica de tudo aquilo que fazemos é para conquistar ouvidos.
O que jamais conseguiremos, se nos esquecemos, que minha existência se deve ao número dos que me ouvem.
O rádio vale pelo volume e a qualidade dos seus ouvintes.
Eu podia fazer muito mais, mas as vezes falta dinheiro pra fazer tudo o que quero.
Eu sei que posso realizar o sonho do meu pai e mudar o mundo pra melhor.
Outro dia fiquei muito triste quando ouvi um tal de Hélio Ribeiro dizer que eu, o rádio, sou “a maior oportunidade perdida de melhorar o mundo”.
Eu sou apenas o instrumento.
Eu preciso de gente que me entenda, me respeite e que me ajude a cumprir a minha missão.
Ah, com alegria, muita alegria… Se possível.
Redação por Antonio Neres
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