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Dependência da China, reforma tributária, endividamento e infraestrutura colocam à prova a competitividade do setor.
O agronegócio brasileiro atravessa um momento decisivo, marcado pelo contraste entre sua extraordinária capacidade produtiva e os desafios econômicos, políticos e estruturais que ameaçam sua competitividade. Entre os principais obstáculos estão o endividamento dos produtores rurais, a precariedade logística, a concentração das exportações, as mudanças tributárias, a insegurança jurídica ambiental, os riscos climáticos e a necessidade de novos corredores comerciais. Em Mato Grosso do Sul, onde a agropecuária e a agroindústria desempenham papel fundamental no desenvolvimento econômico, essas questões ganham ainda mais relevância. O desafio do governo federal não se resume a ampliar a produção, mas a construir condições para que o setor continue investindo, gerando empregos e competindo internacionalmente.
A dependência comercial da China representa uma das maiores vulnerabilidades estratégicas do agronegócio. Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o país asiático respondeu por aproximadamente 33% das exportações do agro brasileiro em 2025. Em Mato Grosso do Sul, essa concentração é ainda mais expressiva: dados da Semadesc apontam que a China absorveu 49,16% das exportações estaduais entre janeiro e julho de 2026. O risco dessa dependência ficou evidente com as restrições comerciais chinesas à carne bovina brasileira. Conforme noticiado pelo Correio do Estado, o esgotamento da cota de importação estabelecida para 2026 provocou a incidência de uma tarifa adicional de 55%, comprometendo a competitividade das exportações. Diversificar mercados, fortalecer acordos internacionais e ampliar o valor agregado dos produtos brasileiros deixaram de ser apenas oportunidades comerciais e passaram a representar necessidades estratégicas.
No ambiente interno, o endividamento rural e a reforma tributária estão entre as maiores preocupações dos produtores. Juros elevados, custos de produção, oscilações nos preços das commodities e dificuldades de acesso ao crédito pressionam as margens de rentabilidade, especialmente nas atividades de maior necessidade de capital. Paralelamente, a transição tributária iniciada em 2026, com a implantação gradual do IBS e da CBS, exige atenção redobrada ao planejamento financeiro e à gestão das propriedades. Embora a reforma estabeleça tratamentos diferenciados para produtos agropecuários, conforme esclarece a CNA, seus efeitos dependerão da regulamentação, do aproveitamento de créditos tributários e das características de cada atividade. A modernização do sistema precisa resultar em simplificação efetiva, previsibilidade e competitividade, evitando que a complexidade operacional comprometa a capacidade de investimento no campo.
Outro conjunto de desafios envolve infraestrutura, meio ambiente e mudanças climáticas. A deficiência de rodovias, ferrovias e estruturas de armazenagem aumenta os custos logísticos e reduz a competitividade da produção brasileira. Ao mesmo tempo, a frequência de eventos climáticos extremos reforça a necessidade de ampliar o acesso ao seguro rural, investir em tecnologias de adaptação e fortalecer instrumentos de gestão de riscos. No campo ambiental, o equilíbrio entre preservação, produção e segurança jurídica será fundamental para atrair investimentos e assegurar o acesso aos mercados internacionais. Para Mato Grosso do Sul, a consolidação da Rota Bioceânica representa uma oportunidade de transformação logística, com potencial para conectar a produção regional aos portos do Pacífico e ampliar as possibilidades comerciais com países asiáticos.
O futuro do agronegócio brasileiro dependerá menos de disputas ideológicas e mais da capacidade de transformar desafios estruturais em políticas públicas consistentes. A competitividade do setor exige crédito acessível, responsabilidade fiscal, infraestrutura eficiente, abertura de mercados, estabilidade regulatória e investimentos em inovação. Mato Grosso do Sul reúne vantagens importantes, como expansão agroindustrial, diversificação produtiva e localização estratégica, mas precisa converter esse potencial em desenvolvimento sustentável e maior geração de riqueza. Mais do que produzir em quantidade, o próximo grande desafio do agro será produzir com rentabilidade, agregar valor, reduzir vulnerabilidades e conquistar autonomia competitiva. Afinal, a força de uma potência agrícola não deve ser medida apenas pelo que ela produz, mas também pela segurança e pela inteligência com que constrói seu futuro.
Fabio Avelino Duarte – Publicitário, trabalha com comunicação no agronegócio há mais de 15 anos . Atua como gestor de Pecuária através de um projeto de melhoria genética de Nelore.
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