Retrospectiva: 2025 foi um dos anos mais violento para mulheres em MS desde 2015

Em 1° de fevereiro deste ano, Karina Corim foi violentamente atacada pelo ex-companheiro, Renan Dantas, na cidade de Caarapó. Um dia antes de ser morta pelo homem, Karina procurou o sogro para pedir ajuda, já que o ex não aceitava o término do relacionamento. Além dela, uma amiga que a acompanhava também foi baleada e não resistiu ao ferimento. 

Naquele momento, a imprensa e a população ainda não sabia, mas o feminicídio contra a jovem seria o primeiro de uma série de 39 casos que marcaram 2025 como um dos anos mais letais e violentos contra mulheres no Mato Grosso do Sul. Entre 1º de fevereiro e 31 de julho, pelo menos 20 mulheres foram mortas no Estado em crimes classificados ou com indícios de feminicídio. O índice equivale a uma mulher assassinada a cada nove dias. Em novembro, foram registrados seis feminicídios em menos de 30 dias.

Considerando o histórico de 10 anos do Monitor da Violência Contra a Mulher, painel desenvolvido pelo Tribunal de Justiça de MS e que reúne dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública, o ano de 2025 ocupa a terceira posição em número de vítimas. O total acumulado fica atrás apenas dos anos de 2022, com 44 casos, e 2020, com 40 ocorrências.

O feminicídio é uma das faces mais extremas da violência doméstica, e o aumento significativo dos casos em relação aos últimos dois anos escancara a persistência da violência de gênero no estado e as fragilidades do sistema de proteção às mulheres. Ainda de acordo com o Monitor da Violência Contra Mulher, 21.737 mulheres foram vítimas de violência doméstica e 14.272 medidas protetivas de urgência foram emitidas. 

O colapso na rede de proteção

Vanessa Ricarte foi a segunda vítima em fevereiro de 2025. A jornalista foi morta pelo ex-companheiro, o músico Caio Nascimento, logo após registrar um boletim de ocorrência na Casa da Mulher Brasileira e pedir uma medida protetiva contra o homem. Em um áudio enviado a amigos, a mulher descreveu o atendimento oferecido na delegacia como ‘frio’ e ‘seco’. 

O relato de Vanessa apontaram e escancararam uma série de falhas no atendimento e no processo de acolhimento à vítimas oferecido pela Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher. Em uma enquete realizada durante o Jornal da Hora, logo após a morte da jornalista, ouvintes relataram o sentimento de insegurança e desamparo em relação à rede de proteção às mulheres e registraram a ineficiência da medida protetiva aplicada aos agressores. 

Na ocasião, 25 mulheres expuseram experiências de violência e as barreiras encontradas no sistema de justiça. Uma delas descreveu ter sido agredida pelo ex-marido na presença dos filhos. Segundo ela, a quebra da medida protetiva não resultou em punição, o que encorajou o agressor a ironizar a situação. Em tom de deboche, ele teria afirmado: ‘Eu amo a mulher brasileira’, referindo-se ironicamente à Casa da Mulher Brasileira. 

Em setembro de 2025, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), por meio do Grupo de Atuação Especial de Controle Externo da Atividade Policial (Gacep), instaurou inquérito civil para apurar falhas estruturais e operacionais na 1ª Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) de Campo Grande.

Entre as falhas apontadas no relatório entregue, estavam o desencorajamento a registrar boletim de ocorrência e a falta de acolhimento. Durante a investigação do Ministério Público apontou também 6.062 boletins de ocorrência represados.

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