
Partiu seu Policarpo, levando alegria e fogos de artifício para o céu. Seu Policarpo da Brasfogos — ou Policarpo Matias de Lima, seu nome inteiro — despediu-se desta vida num sábado (10/01/2026), aos 90 anos por causas naturais. Ele completaria 91 anos nesta próxima segunda-feira (26).
Foi descansar, mas deixou acesa uma luz que não se apaga.
Quem era ele?
Era o mais antigo proprietário da mais antiga e tradicional loja de fogos de Campo Grande: a Brasfogos, na Rua 7 de Setembro. Há mais de quatro décadas no ramo, ao lado da sócia dona Irene Coutinho, seu Policarpo ou seu Matias como muitos, o conheciam, se orgulhava em dizer que a loja “foi a primeira do país nesse segmento”.
Mais do que vender fogos, defendia o cuidado, o conhecimento e o respeito por aquilo que lida com o brilho — e com o risco.
Zeloso, exigente e apaixonado pelo que fazia, implantou um sistema de atendimento exemplar, com treinamento rigoroso dos funcionários para orientar clientes sobre o manuseio correto dos artefatos. Conhecia mais de duzentos tipos de fogos: das singelas bombinhas infantis aos grandes kits de espetáculos pirotécnicos. Falava deles como quem fala de arte. E ninguém saía da Brasfogos sem uma boa prosa.
Sempre que eu ia lanchar as esfihas do Zhuer, filho do seu Michel — outro comerciante histórico da região — dava uma passada na loja para colocar a conversa em dia com seu Policarpo. Brincava com a coincidência do nome com o Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, aquele nacionalista exagerado. Mas o Policarpo de carne e osso não sonhava com mirabolâncias patrióticas: sonhava mesmo era com o céu iluminado pelos fogos, especialmente nas festas juninas, que ele tanto amava.
Eu e Márcia o conhecemos nos anos 1990, no início do nosso namoro, quando morávamos em um pequeno prédio ao lado de uma floricultura — hoje fechada — no mesmo quarteirão da Brasfogos. Ali, entre a rotina simples da rua e as noites festivas de São João, seu Policarpo fazia parte da paisagem afetiva da cidade.
As noites juninas eram uma festa para ele.
Os fogos clareavam o céu, iluminavam sorrisos, dançavam sobre a rua como se celebrassem o amor — esse clarão breve e intenso que dá sentido à vida. Porque a vida, afinal, é como fogos de artifício: sobe em luz e cor, explode em alegria e, de repente, se apaga, deixando apenas a fumaça que logo desaparece na escuridão.
A morte de seu Policarpo nos remete a um tempo que vai ficando distante, marcado por perdas silenciosas como a dele. Agora, seus fogos anunciam sua chegada aos braços de Deus Pai. Os olhos se cruzam, as mãos se entrelaçam, e os anjos o recebem num abraço quente e definitivo.
Que descanse em paz, seu Policarpo — e em muito amor.
Talvez o mundo fosse melhor se houvesse fogos de artifício todas as noites.
Amém.
Redação por Bosco Martins
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