Consórcio e prefeitura culpam usuários do transporte público por irregularidades

Em resposta à vistoria feita pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), que destacou diversas irregularidades nas medidas de biossegurança adotadas no transporte público de Campo Grande, a prefeitura do município e o Consórcio Guaicurus protocolaram um documento no qual apontam os usuários do serviço como os responsáveis pelas pendências alegadas.

O documento de defesa encaminhado ao juiz da 1ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos da comarca de Campo Grande justifica que medidas de conscientização têm sido tomadas, bem como o seguimento dos protocolos de biossegurança, porém a população não tem colaborado com as ações.

“Vale esclarecer que as alegadas pendências, em sua grande maioria, representam a falta de conscientização da população/usuário, mas se vê que o município faz campanha para conscientizar, orientar e criar medidas de segurança e solicita a colaboração de todos para seguirem as regras”.

A declaração ainda aponta que as medidas de biossegurança do projeto “Transporte em Ação – Está Seguro Usar o Transporte Coletivo”, iniciado em 06 de julho de 2020 está em andamento em todos os terminais de embarque e desembarque, oferecendo os serviços de aferição de temperatura corporal, higienização das mãos utilizando álcool 70%.

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Orientações sobre os cuidados que deverão ser adotados para evitar o contagio do coronavírus, além de pias espalhadas pelos terminais com água corrente e sabão para a realização de higienização de funcionários e passageiros, papel toalha, distanciamento de 1,5 metros e controle do uso de máscaras realizado pelo motorista.

No entanto, em entrevista a reportagem do Correio do Estado, uma usuária do serviço diz desconhecer todas as medidas listadas pela prestadora de serviço.

A jovem, que preferiu não se identificar, afirma que usa o transporte público desde o início da pandemia, e que em nenhuma vez neste período de um ano teve sua temperatura aferida por algum funcionário do Consórcio Guaicurus e ressalta que outras medidas foram feitas só no início da pandemia.

“Uso o transporte coletivo todos os dias, desde o início da pandemia, e nunca aferiram minha temperatura, nem fora de ônibus nem dentro, no início da pandemia eles colocaram algumas pias pelos terminais para fazermos higienização das mãos, mas nunca tem sabonete e é muito raro quando tem água, algumas vezes temos sorte de podermos enxaguar as mãos”, pontuou a jovem. 

Além disso, os recipientes de álcool gel são improvisados com garrafinhas pets e nem sempre estão disponíveis para quem pede.

O depoimento da usuária vem ao encontro com a pesquisa publicada ontem, pelo Correio do Estado, em que 89,94% dos passageiros do transporte coletivo afirmam ter medo de contrair a Covid-19 ao utilizar os ônibus que circulam em Campo Grande. O levantamento foi feito pelo Instituto de Pesquisa Resultado (IPR), a pedido do Correio do Estado.

Esse grupo se subdivide entre 26,10% que têm muito medo de ser infectado pelo coronavírus, 36,48% têm medo de contrair a Covid-19 e outros 27,36% têm um pouco de medo de ficar doente ao viajar de ônibus pela cidade.

A pesquisa encomendada pelo Correio do Estado ao IPR também foi mais a fundo sobre o perfil dos usuários que têm medo de utilizar o sistema. Entre as mulheres, 43,60% dizem ter medo; 34,30% têm muito medo; e 19,19% têm um pouco de medo. Enquanto que somente 1,16% diz não ter medo e 1,75% diz não usar o sistema.

Na manhã de segunda-feira, os usuários precisaram lidar com a diminuição da rota em razão do “feriadão”, resultando em ônibus lotados. Ontem, a situação foi normalizada, com a inclusão de mais veículos.

Ação

Ao listar uma série de irregularidades constatadas nos terminais durante vistoria feita pelo MPMS, a promotora Filomena Aparecida Fluminhan pediu para que o juiz da 1ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos reconheça o descumprimento das decisões de primeira e segunda instância.

A punição solicitada pela promotora de Justiça é de aplicação de multa de R$ 10 mil por dia, no limite de 30 dias, para Agetran e Consórcio Guaicurus. Como a constatação das irregularidades foi verificada há mais de 30 dias, o valor pode chegar a R$ 300 mil para cada um dos requeridos caso o Judiciário acolha o pedido.

  • Fonte: Correio do Estado