Rua 14 de Julho abandonada após obra milionária do Reviva Centro

Chuva trouxe estragos para ruas e prejuízos para lojistas e para motoristas que transitam pelo Centro

Após menos de dois anos da revitalização que custou R$ 60 milhões, pedestres e comerciantes da Rua 14 de Julho reclamam da falta de segurança e de manutenção da via de Campo Grande. 

Com a falta de fiscalização, a população transita no local com medo e insegurança, principalmente à noite.  

A equipe de reportagem do Correio do Estado esteve na rua e de cara encontrou os primeiros sinais de descaso. 

Algumas árvores do entorno estavam mortas, em outros pontos estacas de pau foram fincadas no chão para novas árvores que estão sendo plantadas. 

Além disso, não foi identificado nenhum agente da Guarda Civil Metropolitana (GCM) para fiscalizar uma das vias mais movimentadas da Capital.

A vendedora Djheiny Raiane, 18 anos, transita pela via diariamente para chegar ao trabalho. Segundo ela, mesmo com a revitalização, a falta de segurança nos últimos meses tem preocupado, pois, em determinados horários o local começa a ser povoado por moradores de rua e usuários de drogas.  

“A obra foi muito boa, mas a segurança é muito importante. À noite tem muito andarilho e morador de rua, sempre vejo aqui na via e causa bastante medo, principalmente passando no local com bolsa, por isso procuro não ir para o ponto de ônibus sozinha, porque não tem fiscalização”, relatou.  

A empresa Engepar Engenharia venceu a licitação para executar a revitalização da Rua 14 de Julho, pelo custo de R$ 49.238.506,82, mas o contrato milionário precisou de um termo aditivo e passou a custar R$ 60.455.110,03. 

A inauguração ocorreu em novembro de 2019. As intervenções foram financiadas pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

A empresária Katy Mota, 38 anos, proprietária de loja de roupas, relatou que, por conta da falta de fiscalização, já foram registrados diversos furtos de mercadorias em seu empreendimento. 

Segundo ela, o medo é constante, visto que o local não tem segurança.  

De acordo com o projeto inicial, a Guarda Civil Metropolitana deveria ter uma base de container funcionando 24 horas na Praça Ary Coelho. O que, segundo a comerciante, não acontece na prática. 

“A segurança conta muito, os guardas ficam apenas na [Avenida] Afonso Pena, mas em rotatividade não temos, e apenas em alguns horários. Eu, como comerciante, não me sinto segura, diariamente sofro furtos aqui. Não tenho coragem de reagir, não sei se possuem qualquer tipo de arma, prefiro perder a mercadoria do que a vida”, alegou.  

Katy reitera que, desde a primeira retomada, ela perdeu clientes. Primeiro com as obras, depois com a pandemia e agora com novos trechos com interdições, ela se preocupa com a continuidade de seu empreendimento.

“Quando inauguraram era de um jeito, agora o descaso já pode ser visto, até no paisagismo daqui, e está previsto em novembro de fecharem a [Rua] Dom Aquino, em pleno fim do ano, seguimos na luta com essas obras. Ninguém pensa no lado do comerciante, agora o Centro sendo todo travado novamente, após mais de um ano de pandemia”, apontou.  

A reportagem entrou em contato com o secretário Municipal de Segurança Pública, Valério Azambuja, para mais esclarecimentos sobre a segurança do local, mas até a publicação do conteúdo não houve resposta.  

DECEPÇÃO

A obra, que fez parte do projeto Reviva Campo Grande, durou cerca de 17 meses e até hoje impacta no orçamento de diversos comerciantes, como é o caso do empresário, Marcelino Pereira Rocha, 63 anos. 

Segundo ele, a diminuição de espaços de estacionamento público e de fluxo de pedestres na região segue sendo um problema para a retomada dos lojistas.

“Essa obra mudou a cidade, mas para os comerciantes os impactos ainda existem. O movimento maior no Centro é aqui [a rua], mas veio a obra e depois a pandemia e ainda não voltamos ao que era antes. Logo quando entregaram tinha bastante guarda aqui circulando e fiscalização, agora não tem mais, já não é igual quando entregaram”, relatou.  

Regina Lima, 44 anos, que transita pela 14 de Julho todo dia do ponto ao trabalho e no retorno para casa, também se preocupa com a falta de fiscalização. 

“A obra ficou boa, mas a segurança ficou a desejar, estou passeando com a minha filha aqui na 14 hoje e não vi nenhum guarda fiscalizando”.  

MILHÕES  

As obras do Reviva Campo Grande são financiadas pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). 

Em 2018, a Prefeitura de Campo Grande emprestou US$ 56 milhões para execução de projetos. 

SEGUNDA ETAPA

A segunda etapa do Reviva Campo Grande contempla o microcentro, que abrange, além da Rua José Antônio, o quadrilátero formado pelas avenidas Fernando Corrêa da Costa, Mato Grosso e Calógeras e pela Rua Padre João Crippa.  

O projeto prevê 27,8 quilômetros de recapeamento e 4,1 quilômetros de drenagem, além de revitalização que abrangerá as vias transversais à Rua 14 de Julho, no quadrilátero das ruas 26 de Agosto/Barão de Melgaço, Antônio Maria Coelho, Padre João Crippa e Avenida Calógeras.

A nova fase do Reviva já preocupa comerciantes da região central. Além da falta de segurança, o retorno das chuvas trouxe outros problemas para os comerciantes e para a população dessas vias, que sofrem com os estragos espalhados pela cidade.

Visto que a prefeitura não aproveitou o longo período de estiagem para realizar obras de drenagem.

O empresário Alberto Guimarães, 58 anos, dono de uma das lojas de utilidades da Rua 14 de Julho, se preocupa que as intervenções causem ainda mais prejuízos para os empresários que tentam se estabelecer e gerar lucros após a pandemia.

“Precisamos analisar tudo que já aconteceu, infelizmente durante a reforma da 14 de Julho muita gente faliu aqui. Ficou muito tempo em reformas e ainda teve a pandemia, muitas pessoas não conseguiram se reerguer e foram embora, pouco tempo depois já voltam com mais obras”, disse.

“A minha preocupação é com o comerciante pequeno, há pessoas que não vão aguentar”, completou.

A previsão é de que a requalificação das vias seja concluída até agosto de 2022, mês que marca o aniversário de Campo Grande. 

  • fonte: Correio do Estado