Criado na França no século 19, o sistema Braille de escrita tátil ganha curso inédito e gratuito em Campo Grande, aberto à comunidade em geral

Embora a turma seja pequena, de apenas 20 alunos, nem todos os participantes do curso de escrita Braille, que começa hoje na Biblioteca Estadual Dr. Isaías Paim, são pessoas com deficiência visual.
O sistema Braille é um código universal de leitura tátil e de escrita normalmente utilizado por pessoas cegas, educadores, familiares e outros grupos de contato mais permanente com quem tem esse tipo de deficiência.
O mais comum, portanto, é que cursos do gênero sejam voltados para um público segmentado. Graças a uma iniciativa do professor João Guanes, em parceria com a biblioteca pública, que integra a Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS), Campo Grande torna-se uma das poucas cidades brasileiras a furar a bolha, ainda que em escala modesta.
NÚMEROS
O Brasil possui 6,5 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência visual, segundo as últimas estatísticas oficiais (IBGE, 2010). Desse total, pelo menos 500 mil são completamente cegos, condição de por por volta de cinco mil sul-mato-grossenses.
Não há dados bem consolidados sobre o número de pessoas no País que dominam o Braille. Nos EUA, estima-se que menos de 10% dos cegos saibam usar o sistema.
HISTÓRIA
Desenvolvido na França entre 1825 e 1837 por um jovem cego, a partir de um sistema anterior, mais rudimentar, criado para uso militar, o Braille utiliza seis pontos em relevo dispostos em duas colunas e possibilita a formação de 63 símbolos diferentes.
Esses símbolos são usados em literatura nos diversos idiomas, na simbologia matemática e científica, na música e na informática.
Louis Braille (1809-1852), aos 3 anos de idade, feriu o olho esquerdo ao manipular uma ferramenta pontiaguda. Uma infecção alastrou-se, fazendo-o ficar completamente cego dos dois olhos.
Com vocação para Professor Pardal, o ainda menino Louis foi se destacando com a desenvoltura apresentada na escola até, aos 12 anos, começar a mudar a história de quem não enxerga ao dar início no aperfeiçoamento do sistema militar de um capitão do exército francês, Charles Barbier (1767-1841).
INCLUSÃO
As pessoas que enxergam não precisam do tato para ler em Braille. Com o aprendizado do revolucionário sistema francês, por meio de cada combinação de seis pontos por cela, o indivíduo que vê pode ler textos em Braille apenas substituindo a simbologia cifrada por letras do alfabeto comum.
A escrita Braille é uma excelente ferramenta de inclusão social, que insere os cegos no universo da literatura ao mesmo tempo em que aproxima as pessoas que enxergam da realidade dos que estão impedidos dessa possibilidade, servindo, assim, para aproximação e interação de todos.
O principal objetivo do curso é popularizar o acesso à escrita Braille para ampliar a compreensão do universo que envolve o cego, permitindo a desconstrução dos estigmas e fomentando a acessibilidade.
FAZER A DIFERENÇA
A ideia surgiu quando João Guanes se deu conta da presença, cada vez maior, desse meio de leitura tátil e escrita em relevo em diversos locais e contextos.
“Podemos citar como exemplos cardápios em restaurantes, embalagens de remédios, contas de água e luz, bibliotecas com livros diversos neste formato e materiais cada vez mais acessíveis nos ambientes de ensino”, enumera o professor, que tem formação em Jornalismo e Letras.
Apenas 1% dos livros publicados no País ganha versão em Braille. O custo de cada edição sai, em média, 70% acima do que se gasta para fazer um livro comum, em decorrência de especificações como o tipo de papel.
São números que, uma vez mais, apontam para um quadro desolador, ao qual procuram fazer frente instituições como a Fundação Dorina Nowill, de São Paulo, e o Instituto Sul-Mato-Grossense para Cegos Florivaldo Vargas (Ismac), além de iniciativas pontuais, a exemplo do curso da biblioteca estadual, que é oferecido de forma gratuita e vai de hoje até o dia 20 de julho, no formato presencial – de segunda a sexta-feira, das 18h às 19h30min.
PRÁTICA E MATERIAIS
“O propósito maior é a interação”, reforça Guanes. “O sistema Braille é o meio de comunicação do deficiente visual com o mundo. Acredito que sem essa linguagem é impossível pensar em inclusão. O curso é destinado à sociedade em geral. O objetivo é fixar na mente do cursista menos teoria e mais prática, pois o Braille se resume em prática – esta será a base para que eles aprendam a ler e escrever”, afirma.
O professor, que também é pós-graduado em Educação Especial, chama a atenção para os materiais a serem utilizados pelos alunos.
“O que diferencia são equipamentos como a [cela de] Reglete, com a prancheta e a punção, e o papel com a espessura maior para escrever. Também estará visível um mostruário representando a cela da Reglete, para um melhor entendimento”, informa Guanes, que completa hoje 55 anos.
BRAILLE PARA VOAR
O educador conhece de perto a diferença que o Braille faz na vida de quem não enxerga. Nascido em Ladário e criado em Corumbá, ele perdeu completamente a visão em 2006, por consequência de um descolamento de retina.
“Acredito que precisei perder a visão para enxergar. Até os 39 anos, não pensava em terminar a antiga quarta série do [Ensino] Fundamental. Havia deixado de estudar aos 17 anos”, diz Guanes.
“Confesso que foi mais difícil, algumas escolas não queriam me aceitar por causa da deficiência visual. Ao concluir o Fundamental, logo me inscrevi para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e fiquei apenas de matemática”, conta o professor.
“Na época já havia conhecido o Ismac, que foi determinante para a minha reabilitação. Conheci o sistema Braille na instituição e também passei por sala de recursos e respondia às provas na escola [regular] em Braille”, diz. Em seguida, Guanes partiu para os estudos universitários.
“O sistema Braille representa para mim asas que me dão condição de voar cada vez mais alto”, poetiza. Que seja assim para todos que precisam.
- fonte: Correio do Estado
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