O agro que cresce nem sempre chega à porteira do pequeno produtor

Mato Grosso do Sul vive um dos momentos mais promissores de sua história no agronegócio. Novas indústrias de celulose, usinas de etanol de milho, projetos de bioenergia, mercado de carbono e sucessivos recordes no Valor Bruto da Produção Agropecuária colocam o Estado entre os principais protagonistas do agro brasileiro. No entanto, basta atravessar a porteira de milhares de pequenas propriedades rurais para perceber que essa prosperidade ainda não alcançou todos da mesma maneira. Enquanto os indicadores macroeconômicos avançam, muitos pequenos produtores continuam enfrentando desafios básicos, como acesso ao crédito, custos elevados de produção e dificuldades para manter as contas em dia.

Os números ajudam a explicar esse contraste. Segundo levantamento da Semadesc, Agraer e Sebrae/MS, a agricultura familiar representa cerca de 61% dos estabelecimentos rurais de Mato Grosso do Sul, reunindo mais de 41 mil propriedades e aproximadamente 80 mil famílias, embora ocupe apenas 4% da área produtiva do Estado. Isso significa que a maioria dos produtores sul-mato-grossenses pertence justamente ao segmento que possui menor escala de produção e menor capacidade de investimento, tornando-se mais vulnerável às oscilações do mercado, às adversidades climáticas e ao aumento dos custos financeiros.

Embora o Governo do Estado tenha ampliado programas de assistência técnica, compras públicas e acesso ao Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) que movimentou mais de R$ 340 milhões em financiamentos no ciclo 2023/2024, o crédito rural ainda representa um dos maiores gargalos para boa parte dos pequenos produtores. As exigências bancárias, garantias, burocracia e, principalmente, o aumento do custo financeiro fazem com que muitos deixem de investir justamente quando mais precisam modernizar suas propriedades. Em diversas regiões, a preocupação do pequeno agricultor continua sendo produzir o suficiente para manter a renda familiar, muito distante das oportunidades ligadas ao crédito de carbono, biocombustíveis ou grandes cadeias exportadoras.

Essa realidade também revela uma diferença importante entre os indicadores econômicos e a distribuição dos benefícios do crescimento. O Valor Bruto da Produção Agropecuária de Mato Grosso do Sul ultrapassa R$ 76 bilhões, impulsionado principalmente pelas grandes cadeias de grãos, pecuária, florestas plantadas e bioenergia. Entretanto, esse desempenho não significa que todos os produtores participem dessa riqueza na mesma intensidade. O próprio estudo socioeconômico da agricultura familiar lançado pela Semadesc reconhece a necessidade de políticas específicas para ampliar renda, competitividade e permanência dessas famílias no campo, demonstrando que desenvolvimento econômico e inclusão produtiva ainda caminham em ritmos diferentes.

O sucesso do agronegócio sul-mato-grossense será ainda mais consistente quando os excelentes números divulgados nos grandes investimentos também puderem ser percebidos na rotina das pequenas propriedades. Afinal, crescimento econômico não se mede apenas pelos bilhões anunciados, mas pela capacidade de transformar a vida de quem produz. Fortalecer o pequeno produtor por meio de crédito acessível, assistência técnica, comercialização e inovação talvez seja o próximo grande desafio de um Estado que já se consolidou como potência do agro, mas que ainda precisa garantir que essa prosperidade atravesse, de fato, todas as porteiras.

Fabio Duarte • Agronegócio

Fabio Avelino Duarte – Publicitário, trabalha com comunicação no agronegócio há mais de 15 anos . Atua como gestor de Pecuária através de um projeto de melhoria genética de Nelore.

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