Sem vaga em creche, quase 100 mil crianças aguardam matricula em MS

Foto: PMCG

Há dois meses, Lucilene Albuquerque aguarda uma vaga em uma creche para a filha de um ano e meio. Se dependesse apenas dela, a menina permaneceria sob os cuidados de familiares ou pessoas próximas, como aconteceu com seus dois filhos mais velhos. Mas, após se mudar para Campo Grande, a rede de apoio, que antes ajudava a dividir essa responsabilidade, já não existe mais.

Enquanto a vaga não chega, Lucilene enfrenta o desafio de conciliar os cuidados com a filha e a necessidade de retornar ao mercado de trabalho. Com as despesas da casa se acumulando, a espera por uma vaga na educação infantil se tornou uma necessidade

“A gente não conhece ninguém e não tem família aqui, então como eu não encontrei uma pessoa de confiança, eu optei em colocar na creche. Confesso que tenho uma sensação de insegurança, se vão realmente cuidar dela. Nenhum dos meus outros filhos foi tão cedo pra escola, quando eles já falavam. A Diana, tá aprendendo as primeiras palavras,então como mãe eu tenho medo que aconteça alguma coisa com ela”, relata.

Para muitas crianças, a creche é uma rede de proteção. É entre salas coloridas, desenhos e a observação atenta de professores que sinais silenciosos de violência, abandono ou negligência costumam aparecer. Mudanças de comportamento, marcas no corpo ou ausências frequentes são alertas importantes que dificilmente passam despercebidos. Por si só, como é o caso de Diana, a escola já funciona como uma barreira contra a violência, poupando mães de deixar os filhos aos cuidados de terceiros e garantindo um ambiente mais seguro durante parte do dia.

Em Mato Grosso do Sul, milhares de crianças ainda estão distantes dessa realidade. Segundo dados apresentados pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-MS), aproximadamente 96 mil crianças aguardam por uma vaga em creches nos municípios sul-mato-grossenses.

A preocupação com esse cenário levou à criação do Programa Integrado pela Garantia dos Direitos da Primeira Infância (PPI), iniciativa do TCE-MS voltada ao fortalecimento de políticas públicas para crianças nos primeiros mil dias de vida, período que vai da gestação até os dois anos de idade e é considerado decisivo para o desenvolvimento físico, cognitivo e emocional.

De acordo com Jerson Domingos, o problema da falta de vagas já havia sido identificado há três anos pelo órgão, que passou a mobilizar prefeituras, câmaras municipais e o governo estadual para a construção de políticas voltadas à primeira infância. As declarações foram dadas em entrevista durante o Jornal da Hora. 

Jerson no estúdio do Grupo Hora. Foto: Maria Luiza Massulo

“Nós temos aproximadamente 50 mil crianças que estão fora das creches e o próprio governo do Estado admite a situação e os problemas oriundos da falta de política para a primeira infância aqui no Estado. Há três anos o tribunal levantou esta questão, nós alertamos o governo do Estado, as prefeituras e as câmaras de vereadores para que se atentassem e impusemos a condição de criar o programa para a primeira infância em cada município”, relata.

Para viabilizar as ações, foram destinados R$ 12 milhões ao programa. Além da criação de um comitê gestor, o projeto passou a promover atividades de conscientização e capacitação em diferentes regiões do Estado.

“Criamos um comitê e acreditamos que esse projeto poderia ser viável, e ele realmente se tornou muito viável dentro do Estado. Hoje ainda continuamos percorrendo Mato Grosso do Sul, fazendo palestras nas escolas, nas câmaras de vereadores. A localidade pouco nos importa; o que importa é a presença do público para conhecer o programa. O principal objetivo é zerar a fila de espera de crianças nas creches”, afirma.

A meta é ambiciosa. Mais do que ampliar a oferta de vagas, o programa busca consolidar uma política permanente de atenção à primeira infância, entendendo que investir nos primeiros anos de vida não significa apenas ampliar o acesso à educação, mas também fortalecer uma rede de proteção capaz de impactar toda a trajetória das crianças.

Por Maria Luiza Massulo

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