Para o ano letivo de 2022, a Prefeitura firmou contrato de R$ 2,1 milhões para a compra dos materiais a serem distribuídos nas unidades escolares da Reme

O ano letivo da Rede Municipal de Ensino (Reme) de Campo Grande teve início no dia 3 de março. No entanto, os kits escolares não foram entregues para todos os 107 mil alunos matriculados nas 204 unidades escolares do município. Sem o material, crianças de favelas da Capital têm se ausentado das escolas.
Este é o caso de Victor, 8 anos, e Julia, 12 anos. Moradoras da Comunidade do Mandela, as crianças deixaram de frequentar as aulas em decorrência da falta dos itens básicos necessários para os estudos, como caderno, lápis, borracha e mochila.
Maria Aparecida, mãe das duas crianças, ficou desempregada durante a pandemia e apenas em março conseguiu uma oportunidade de trabalho.
“Quando as aulas começaram, eu fiquei esperançosa e aliviada, pois sabia que eles ganhariam o kit com os materiais que eu não tive condições de comprar. Mas até agora não entregaram nada, e por isso Victor e Julia não estão indo para a escola”, afirmou.
Segundo a diarista, “eles sentem vergonha, as outras crianças fazem bullying e eles não entendem como vão estudar sem material. Eu tento explicar que vamos dar um jeito. Temos muitas crianças aqui na comunidade nesta mesma situação”, relatou.
A presidente da comunidade, Greiciele Naiara Argilan Ferreira, 28 anos, conta que várias famílias estão com dificuldades de acesso ao estudo por conta da falta dos materiais escolares.
“Muitas crianças estão nessa situação delicada. Sabemos que elas precisam ir para a escola e tentamos fazer com que isso seja real, improvisamos com o que temos. Mas não dá para fazer muito quando se tem tão pouco, e não tem como estudar sem os materiais”, declarou. Atualmente, cerca de 200 crianças vivem na Comunidade do Mandela.
A Secretaria Municipal de Educação (Semed) informou à reportagem do Correio do Estado que os materiais estão sendo entregues e que a demora já era prevista.
“Desde o início das aulas, no dia 3 de março, a previsão era de entrega dos kits durante os primeiros 45 dias de aula. A maioria das escolas já recebeu o material e todas as turmas do 6° ao 9º ano. Algumas turmas do 1° ano ao 5° ano vão receber ao longo desta semana”, justificou, em nota, a Semed.
Ainda conforme a secretaria, a falta de material não é algo que impede as crianças de frequentarem a escola.
“A Semed reforça que a falta do material não é impeditivo para a criança frequentar as aulas. A presença em sala de aula é essencial para o aprendizado do aluno e o material escolar é um complemento das ações e atividades desenvolvidas. E, caso não haja, o conteúdo e as atividades serão ministrados da mesma forma, sem prejudicar o aprendizado”.
Por fim, a secretaria informou que todo o material didático (livros) já foi entregue.
CUSTO
A Prefeitura de Campo Grande comprou materiais escolares para os alunos da Reme ao custo de R$ 2,1 milhões. O contrato foi firmado em fevereiro com a empresa Brink Mobil Equipamentos Educacionais Ltda.
O extrato, no valor de R$ 2.108.570,60, foi publicado no Diário Oficial de Campo Grande (Diogrande) e o contrato terá validade de 12 meses, contados a partir da data da assinatura.
MEDIDA
Foi aprovado e sancionado no início deste ano o Projeto de Lei nº 6.781, que institui a Política Municipal de Prevenção ao Abandono e à Evasão Escolar no Município de Campo Grande.
A lei tem como objetivo principal amenizar a problemática do abandono escolar na Capital e define princípios e diretrizes para sua implementação. Além de orientações sobre os esforços para atuação conjunta entre diferentes órgãos municipais, estaduais e federais, bem como entidades não governamentais, da sociedade civil e da iniciativa privada.
O projeto foca em desenvolver ações que aproximem família, aluno e instituição, com dinâmicas de interação, como rodas de conversa, palestras, projetos de vida e visitas aos alunos evadidos.
Conforme o gerente de Gestão da Educação Básica e professor Heraldo Stockler Bojikian, a lei é mais uma iniciativa do governo municipal para evitar possíveis evasões.
“A Lei nº 6.781 é mais uma estratégia que a Prefeitura Municipal de Campo Grande adotou para combater a possibilidade de evasão escolar em 2022. A gente precisa pensar em políticas motivacionais, em estratégias que façam com que o aluno não perca o interesse e a vontade de estar na escola”, explicou.
Heraldo ainda explicou que a Reme faz parte de um sistema que permite que municípios compartilhem informações a respeito de determinados alunos.
“Fazemos parte de um sistema chamado Busca Ativa Escolar. O que é esse sistema? Ele permite que eu fale com vários municípios do Brasil, pedindo informação a respeito de determinado aluno, e aí é possível fazer um monitoramento desse estudante e a regularização de documentos”, esclareceu.
Os nomes Maria Aparecida, Julia e Victor são fictícios, a pedido da família, que optou por não se identificar.
- fonte: Correio do Estado
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