Infância sob ameaça: a internet como uma porta para a exploração infantil

Foto: Valter Campanato, Agência Brasil

As crianças carregam no rosto a promessa do futuro. Em cada descoberta, brincadeira e aprendizado existe um ser humano em formação, que depende do cuidado dos adultos para se desenvolver de forma saudável. Garantir essa proteção não é apenas uma responsabilidade da família, mas um compromisso coletivo que envolve o Estado e toda a sociedade

Quando essa proteção falha, as consequências podem acompanhar uma vítima por toda a vida. O Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, celebrado anualmente em maio, serve como um alerta para uma violência que persiste de forma silenciosa e devastadora. Segundo dados do Atlas da Violência 2025, cerca de 115 mil crianças e adolescentes são vítimas desse tipo de crime todos os anos no Brasil.

Com as transformações atuais pelas quais passamos e com o acesso muitas vezes irrestrito ao ambiente digital, os meios para aliciamento de menores também se alterou e se desenvolveu.

A internet revolucionou a forma como as pessoas estudam, trabalham, se relacionam e se comunicam. Para crianças e adolescentes, ela se tornou uma extensão natural da vida cotidiana, onde fazem amizades, consomem entretenimento e constroem parte de sua identidade social. Mas, assim como acontece no mundo físico, o ambiente digital também reproduz riscos e violências.

Ao contrário do que muitos imaginam, estar dentro de casa já não é garantia de proteção. Com a popularização das redes sociais, dos jogos online e do acesso cada vez mais precoce à internet, crianças e adolescentes podem ser expostos a diferentes formas de aliciamento e violência. Em 2025, o Brasil registrou quase 90 mil denúncias de crimes cibernéticos, sendo que mais de 60% delas estavam relacionadas a casos de abuso e exploração sexual infantil.

Nelly Macedo em entrevista sobre a campanha Maio Laranja. Foto: Reuel Oliveira

O papel dos pais e responsáveis torna-se ainda mais importante. Assim como no mundo físico eles acompanham os lugares frequentados pelos filhos e as pessoas com quem convivem, no ambiente virtual também é necessário monitorar conteúdos, interações e hábitos de navegação. Em entrevista ao Jornal da Hora, a delegada da Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), Nelly Macedo, alertou para as limitações das ferramentas de controle parental e destacou que o acesso à internet deve ser acompanhado de forma constante e consciente pelos responsáveis.

 “É importante que os pais saibam que não existe ambiente seguro no mundo digital. Mesmo que você use todos os artifícios que as plataformas impõe, como o controle parental, nós temos que ter consciência de que os predadores estão alí e vão burlar esse controle […] Se o filho está com o celular na mão e com acesso a internet, o mundo tem acesso a ele”, orienta.

Mais do que simplesmente monitorar, em tempos em que essas crianças são expostas cada vez mais cedo ao uso de telas, para Nelly é importante que os pais consigam adiar o máximo possível esse contato como ter um celular ou computador próprio.

Eca digital: O que muda na prática?

Em 2025, o debate sobre a exposição de crianças nas redes sociais ganhou força. Muitas vezes com incentivo e participação direta dos próprios pais, os chamados influenciadores mirins conquistaram espaço nas plataformas digitais e evidenciaram a falta de controle sobre quem consome esses conteúdos e de que forma essas imagens podem ser utilizadas.

O tema voltou ao centro das discussões após a viralização de um vídeo de denúncia nas redes sociais. Além de reacender o debate sobre os limites da exposição infantil no ambiente digital, o episódio evidenciou os riscos aos quais crianças e adolescentes podem estar submetidos em um espaço onde nem sempre é possível controlar o alcance e o destino das imagens compartilhadas.

Considerado um marco na proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital, o ECA Digital estabelece novas obrigações para empresas de tecnologia, como a remoção imediata de conteúdos relacionados ao abuso e à exploração sexual infantil, com comunicação obrigatória às autoridades competentes. A legislação também prevê a adoção de mecanismos de verificação de idade e ferramentas de controle parental para ampliar a segurança dos menores na internet.

Entre os conteúdos sujeitos a restrições e monitoramento estão publicações que incentivem a violência física, a pornografia, o uso de drogas, a automutilação, o suicídio e a promoção de jogos de azar, além de outras práticas que possam colocar em risco o desenvolvimento físico, emocional e psicológico de crianças e adolescentes.

Uma responsabilidade coletiva

Combater a exploração sexual de crianças e adolescentes exige atuação integrada entre famílias, escolas, órgãos de proteção, forças de segurança e sociedade civil.

Herculano Borges no estúdio do Grupo Hora. Foto: Maria Luiza Massulo

A denúncia continua sendo uma das principais ferramentas para interromper ciclos de violência, mas a prevenção começa muito antes nas conversas cotidianas, na atenção aos sinais de mudança de comportamento e no acompanhamento da vida digital das crianças.

Ao Jornal da Hora, o vereador Herculano Borges (Republicanos), responsável por diversas mobilizações realizadas principalmente durante o mês de maio, ressaltou que a escuta ativa dos responsáveis pode ser uma das melhores formas de evitar que as crianças precisem lidar com qualquer tipo de violência sem o acolhimento necessário.

“Os aliciadores estão aqui. Existem exposições desnecessárias  em redes sociais e os filhos ficam completamente desprotegidos no ambiente digital. Se os pais não conversarem, não derem atenção, aquela criança pode vir a ser vítima. Então é importante colocar essa criança para fazer atividades, fazer um esporte, fazer atividade na igreja, fazer uma atividade cultural e ocupar o tempo dele”, recomenda o vereador.

Por Maria Luiza Massulo

Leia outras produções do Grupo Hora